Somos mesmo viciados no credito como diz a Troika? Para perceber o problema que temos neste momento no pais é preciso perceber o que mudou na sociedade e no sistema bancario desde o inicio da década de noventa até aos dias de hoje. É essa análise que este artigo se propõe a fazer.
E diz a Troika: São uns viciados em crédito
Somos mesmo viciados no credito como diz a Troika? Como é que um povo tão conservador e poupado, no início dos anos noventa começou a mudar tanto os seus hábitos de consumo? Como foi possível esta inversão de valores repentina, sem que ninguém se apercebesse ou fizesse nada para impedir que chegássemos a este ponto, que compromete a nossa nação durante um espaço de tempo ainda imprevisível? Que se poderá fazer para evitar que voltemos a cair nesta esparrela? Não merecerá uma análise mais profunda dos nossos governantes esta situação, ou depois logo se resolverá, com medidas de subidas de impostos e austeridade como se tem remendado este país até agora?
Como mudou o nosso Consumo
Se analisar-mos a realidade de hoje, confirmamos que é muito diferente daquela que se vivia á vinte anos. Somos alvos de uma publicidade que se move em todos os meios: Televisão, rádio, telemoveis, revistas e jornais, internet, telemóveis e até panfletos que recebemos na rua e na caixa de correio.
Toda esta publicidade estimula ao consumo. Somos de cada vez mais consumistas inconscientes, logo gastamos também muito mais dinheiro. Somos encantados e seduzidos pelas campanhas de publicidade que se instalam na nossa mente, e que mesmo que muitas vezes não tenham um efeito imediato, ficam persistentemente na nossa mente até que o acto do consumo seja executado. Toda lógica de capitalismo roda em torno deste conceito. Depois criam-se novas necessidades, e asseguram-se a venda de novos produtos no mercado (veja-se o exemplo dos Ipads).
As campanhas de publicidade e os seus conceitos de marketing são hoje muito mais evoluídos do que há vinte anos. Hoje quando uma empresa lança uma gama de produtos, poderá não estar a fazer um feito tão simples como parece. Associado a um produto está um estilo de vida, uma sensação, uma visão do mundo, uma classificação, uma panóplia de características que se pagam, e não apenas o produto em si. Neste caso estou a referir-me mais concretamente ao caso da Apple, que consegue fazer isto de uma maneira fantástica mas que é seguida por muitos.
Face a estas publicidades tornamo-nos vulneráveis, queremos evidenciar um nível de superior ao que o nosso orçamento pessoal permite. Isto verifica-se em todos os estratos sociais, Muitos dos sobre endividados de Portugal têm rendimentos muito altos, mas não resistem ao apelo do consumo, e o orçamento apesar de alto é sempre insuficiente.
Já não consumimos só o que precisamos, somos vítimas de uma propaganda agressiva e de uma sociedade materialista que nos leva a consumir muito mais do que temos necessidade, queremos demonstrar que temos um orçamento familiar alto, nem que seja á custa de muitos creditos pessoais camuflados.
Começa também a ser difícil de distinguir aquilo que é essencial daquilo que não o é, mesmo para consumidores mais conscientes e atentos á nossa realidade. Dou o exemplo da Internet, visto como muitos como um luxo, mas hoje é já um bem de primeira necessidade, pois muitos dos serviços do dia-a-dia hoje são disponibilizados por este meio. Até a própria comunicação com o Estado e Bancos é feita de cada vez mais usando este meio. Mas este é mais um encargo permanente para todas a famílias e que obriga á compra de mais uma panóplia de aparelhos e periféricos.
As novas tecnologias são um exemplo flagrante de uma área que leva as pessoas a um consumismo sem controlo. Todos têm que ter o topo de gama, e eles tornam-se obsoletos de cada vez mais rapidamente. A solução para conseguir ter sempre as mais recentes tecnologias em casa passa por o recurso a um credito pessoal. A isto acrescenta-se o facto de este grande investimento em novas tecnologias representar um fluxo constante de saída de dinheiro do país, pois são muito poucas a empresas nacionais a conseguirem vingar neste ramo.
Toda a sociedade se foi transformando em prol do consumismo. Hoje os horários das lojas tradicionais e das grandes superfícies comerciais são muito mais flexíveis e alargados, facilitando o consumo. A criação de cartões de fidelização, faz com que os clientes comprem para aproveitar promoções, que comprem por impulso e por sentirem que estão a aproveitar uma boa oportunidade. Muitos dos descontos destes cartões são limitados em produtos e em espaço de tempo, o que faz com que se consumam produtos desnecessários apenas para conseguir aproveitar a promoção.

Credito da Imagem para _Dinkel_ no Flickr
O que mudou no crédito
Aliado a uma sociedade muito mais consumista do que era á vinte anos atrás, está um crédito também muito diferente.
Desde que integrámos na União Europeia as taxas de juro têm sido muito mais estáveis, baixas e sólidas. Isto permitiu aos bancos poder facultar credito aos consumidores a taxas de juro muito mais baixas e a alargar a carteira de clientes, facilitando creditos a quem anteriormente teriam sido recusados. A inclusão de Portugal na União Europeia trouxe estabilidade para o país e mudou as regras de concessão de crédito por parte dos bancos. Passou-se a ignorar as garantias, o que realmente interessava era vender mais um credito pessoal.
Da parte dos consumidores, isto passou a ser visto com muitos bons olhos, pois poderiam comprar praticamente qualquer coisa, sem muitas burocracias e satisfazer o seu desejo de consumo sem ter que pagar juros muito elevados. A partir daqui, o grau de necessidade dos produtos passou para segundo grau. Quando se precisava de algo e não se tinha capacidade financeira para isso recorria-se ao credito pessoal, mesmo que se tratasse de um impulso momentâneo ou de uma venda agressiva.
Em jeito de conclusão, este modelo de marketing agressivo que temos neste momento aliado á imagem generalizada de que um credito pessoal é barato e simples contribuiu em muito para que chegássemos a este ponto de situação. Atualmente já podemos ver que acabou o credito facil, vamos ver se a situação começa a melhorar.
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